MINHAS LEITURAS DE 2016

 Entre leituras de  monografias, teses e dissertações que somos convidados a ler todos os anos, porque somos convidados a participar de Bancas. Entre os numerosos textos que nos obrigamos a ler para preparar uma aula ou um curso. Entre as inúmeras leituras que necessitamos fazer para nos manter atualizados com os últimos debates teóricos de nossa área profissional, existem aquelas que fizemos durante o ano pelo simples prazer de ler. É sobre estas últimas que senti vontade de falar um pouquinho para os leitores e amigos do Site.  Então, estas são as leituras que fiz em 2016, apenas para continuar alimentando o prazer de ler.

1. Adriana Lisboa

AZUL CORVO – Alfaguara – Objetiva, 2014

RAKUSHIHA - Alfaguara – Objetiva, 2014

Descobrir o texto de Adriana Lisboa foi uma grata surpresa e o início de uma grande paixão.  Para quem gosta de viajar, os textos de Adriana seduzem desde a primeira linha. Num duplo movimento, a autora transporta o leitor, assim como aos seus personagens, por lugares, costumes, culturas, climas e geografias diversas.  

Em Azul Corvo, o leitor se move entre o úmido calor do Rio de Janeiro e a secura tórrida do verão de Denver, no Colorado. Já em Rakushina, Adriana, nos faz mergulhar em uma viagem geográfica e cultural entre o Rio de Janeiro, Tokyo e Kyoto, no Japão.

A viagem, metáfora tão conhecido para ato da leitura literária, se desdobra num movimento externo e interno na vida dos personagens; mostrando que esses movimentos se enlaçam num processo de continua elaboração subjetiva.  O estranho lá de fora, ressoa no estranho que carregamos dentro nós.    

Entre lugares, entre afetos, entre perdas e memórias quase apagadas, a autora nos leva a conhecer lugares físicos e emocionais que acabam por se revelar assustadoramente comuns.

 2. Milan Kundera

UM ENCONTRO – ensaios – Companhia das Letras, 2013 

A IGNORÂNCIA – Companhia de Bolso, 2015.

 Kundera é um daqueles autores que leio continuamente. Gosto muito do seu estilo, mas, antes de tudo, gosto da subversão que seu olhar propõe a antigos temas.  Costumo ler seus textos literários e seus textos sobre literatura, e devo confessar que os dois estilos sempre me surpreendem e seduzem.

Em A ignorância, o autor traz um novo olhar para o conceito de nostalgia a partir da história de dois exilados do regime comunista da República Tcheca: Irena e Josef.   Irena reconstrói sua vida na França e Josef na Dinamarca. Namorados de adolescência os dois se reencontram depois de vinte anos em um aeroporto em Paris. Ambos estão voltando pela primeira vez a Praga, após os longos anos de exílio.

A experiência do retorno ao país de origem se revela desastrosa. Nada do conforto que poderia se esperar do retorno ao ninho. Os amigos, a família, a língua não despertam o sossego e o aconchego imaginado. O sentimento mais comum é o da perda das origens. Na França, Irena sentia-se em casa. Em Praga, uma estranha. No mesmo diapasão, Josef só pensa em voltar a Copenhague. 

Outro "livrinho" especial de Kundera que chegou as minhas mãos esse ano foi Um encontro. Através de ensaios curtos, o autor surpreende o leitor pela variedade de temas que comprovam seu interesse e conhecimento sob as mais diversas áreas: a pintura de Francis Bacon, a música de Beethoven e de Schönberg e o cinema de Felline; entre tantos outros.  Contudo, e não podia ser diferente, é na literatura que o autor se estende mais prazerosamente.  Nesta área, acompanhamos sua leitura do O Idiota de Dostoiéviski, De castelo em castelo, de Celine, O professor do desejo, de Philip Roth e Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Marques, entre vários outros autores tchecos que, infelizmente, são pouco conhecidos por aqui.

Neste livro ainda, não podemos deixar de pontuar o ensaio O exílio libertador segundo VĔRA LINHARTOVÁ, cujo tema é o da nostalgia.

Neste ensaio, Kundera nos conta sobre a sua surpresa ao ouvir, em uma palestra da autora, o tema da nostalgia sob uma visão lúcida e nada conformista. Será que foi essa palestra o gatinho para a construção do romance? Talvez, além, é claro, das próprias vivencias do autor que também conviveu com a experiência do exilo.

3. Homero

A ODISSEIA – Cosacnaify – tradução de Christian Werner

Este ano consegui reler A Odisseia. Agora li o textoem versos.  A primeira leitura, alguns anos atrás, foi na versão em prosa, bem mais fácil de acompanhar.  Este ano me concentrei na tradução de Christian Werner, numa edição da Cosacnaif acompanhada de vários ensaios sobre o texto. Entre eles, o Posfácio de Alfredo Garcia-Roza, O silêncio das Sereias de Franz Kafka e o belo poema de Konstantinos Kaváfis, Ítaca.

Se partires um dia rumo a Ítaca,

faz votos de que o caminho seja longo,

repleto de aventuras, repleto de saber....

Confesso que a leitura me exigiu um bocado de disciplina, mais foi extremamente prazerosa. Acredito que esse prazer teve como causa principal o conhecimento que, através dos anos, as várias leituras dos comentadores do texto e dos personagens de Homero  me proporcionaram.  Credito a esses fatos a facilidade de acompanhar a tradução em versos, que acabou sendo absolutamente gozosa.

Como comprei a versão em e-book, agora os versos de Homero fazem parte das minhas noites em que o sono demora a chegar. 

4. Jane Austen 

LADY SUSAN – edição bilíngue – Landmark – 2014

Confesso que não sou uma grande leitora de Jane Austen. Minha filha, quando morou em Londres, se tornou fã dessa autora. Por isso, acabei conhecendo a maioria das histórias de Austen através das narrativas que ela me fazia.

No entanto, ao me deparar na livraria com essa edição bilíngue, me pareceu uma forma prazerosa de trabalhar a língua inglesa, além de poder ler algo novo sobre esta autora.

Grata surpresa, Lady Susan me impressionou. A personagem é uma mulher adulta, inteligente, dinâmica e divertida. Os traços cínicos e egocêntricos dão um tom de atualidade a esta figura feminina. Ela sabe usar todo o seu potencial para conseguir o que quer, e melhor, ela sabe muito bem o que quer.  Ou seja, completamente diferente das protagonistas dos outros romances de Austen.

Como o romance tem o formato epistolar, cada movimento do enredo vai se desdobrando em novas perspectivas através das cartas entre os vários personagens.  Assim, Austen transformou a dificuldade do gênero em um elemento extremamente positivo no desdobramento da narrativa.

 5. Stefan Zweig

Montaigne e a Liberdade Espiritual – Um ensaio - Editora Zahar

Gosto de ler Stefan Zweig. Seus textos, grande parte biografias, tem o ritmo leve dos movimentos do ensaio que permitem ao leitor quase que uma conversa com o autor.  Zweig está muito mais preocupado em contar a história do seu jeito, a partir de sua perspectiva, do que com a veracidade, ou a verdade histórica.

Para nós, sujeitos do século XXI, que perdemos a fé nas grandes narrativas, os ensaios de Zweig são extremamente provocadores.

Nesse texto, é a partir da noção de liberdade que a vida de Montaigne vai sendo revelada.  Um recorte absolutamente interessante nesses tempos bicudos e assustadores causados pelo “efeito manada” das opiniões midiáticas.

"Montaigne não rejeita o que temos de paixão ou desejos. Ao contrário, aconselha-nos a sempre fruir o quanto possível, é um homem daqui, da Terra, que não conhece limitações; quem gosta de política deve fazer política, quem gosta de ler livros deve ler livros, quem ama a caça deve caçar, quem ama sua casa, sua terra, e dinheiro e objeto, deve se consagrar a eles. O mais importante para ele, no entanto, é tomar quanto quisermos e não nos deixarmos tomar pelas coisas.

´Em casa, nos estudos, na caça e qualquer outro exercício é preciso ir até os limites do prazer, mas ter cuidado para não ir adiante, onde a dor começa a se imiscuir.´ Não devemos nos deixar empurrar mais longe do que queremos por um sentimento de dever, pela paixão, pela ambição, devemos sempre sopesar o valor das coisas, sem superestimá-los; devemos parar quando acaba o conforto.  É preciso manter a mente lúcida, não se prender, não se tornar escravo, é preciso ser livre."

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    O mito da família feliz

 “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira.” Com esta frase Tolstoi inicia um dos seus grandes romance: Anna Karenina.  Quem já teve o prazer de ler esse clássico da literatura russa, sabe que a trama se desenrola pelos espaços incertos da infidelidade.   

Primeiramente, Tolstoi apresenta a infidelidade masculina. Anna é chamada a casa do irmão para acalmar a cunhada que sofre com a traição do marido. Ela viaja sozinha, deixando em casa o marido e o filho. Fora de casa e da “proteção” do marido, a personagem inicia uma aventura que acaba por transformar sua vida tragicamente.

Certamente, o romance de Tolstoi não vai nos revelar a história de nenhuma família feliz. Afinal, segundo o autor, todas as famílias felizes são iguais. Uma afirmação que evidencia, para esses núcleos familiares, um espaço de neutralidade afetiva, avesso à trama de um bom romance.

Não sei se você leitor acredita no mito da família feliz. Mas, nessa época de rede social, podemos acompanhar a história de algumas pessoas que parecem, realmente, acreditar nesta fantasia. E, vendo as fotos postadas na rede, não há como não se lembrar de Tolstoi: todas são muito parecidas.

Todas essas famílias parecem viver numa gaiola de ouro, repleta de felicidade, amor e harmonia. Lembremos que a gaiola é um espaço restrito, onde um pássaro é conservado longe das intempéries da natureza. Normalmente, são muito bem alimentados, bem higienizados e cuidados. Tornando-se motivo de grande orgulho de seus donos.

Essa é uma boa metáfora para as famílias felizes. Todos os integrantes vivem no minúsculo mundo formado pela casa dos pais. Os donos da casa, com muito orgulho, cuidam, higienizam, adulam e mantém os filhos ao seu redor. Constroem  um ambiente de segurança e entrosamento que parece nunca ter fim.  

Nem todos que coabitam essas gaiolas estão completamente felizes. Mas, sem dúvida nenhuma, todos se sentem muito seguros, protegidos e amados. Afinal, os verdadeiros laços são os laços de sangue. Este é um dos mantras destas famílias. Juntos eles se protegem da violência que impera do lado de fora do muro.

Escutar as dúvidas de um dos membros desses clãs é começar a entender que o paraíso tem preço. E, às vezes, um alto preço. Ninguém se sente autorizado a dar um passo para fora da trama familiar. A culpa de imaginar que a sua saída pode quebrar o encanto, pode desfazer a fantasia da unidade familiar é um fardo pesado demais para carregar. Ninguém os proíbe de sair, mas todas as tentativas de sair provocam no grupo uma grande apreensão. Uma dor narcísica profunda, acompanhada de fantasias persecutórias para o futuro do grupo e daquele que ousa pensar em quebrar o pacto.

Os formadores dessas famílias “felizes” são pais com traços fóbicos e, portanto, extremamente controladores. Sustentados pela fantasia da família ideal, não aceitam crescer. Não querem mudar, porque toda mudança implica em perdas.  Negam-se a aceitar uma das maiores verdades da vida: tudo muda o tempo todo. A vida é movimento.

Normalmente, são pais moderninhos. Muito permissivos. Tudo é permitido dentro de casa: dormir junto com a namorada, levar os amigos para o fim de semana e, muitas vezes, até mesmo o uso de alguma droga leve como a maconha. São pais que os amigos dos filhos admiram. São descritos como legais, antenados, divertidos e compreensivos.  

Se você não tem, ou não teve pais “tão legais”, não se sinta mal. Seus pais, como a maioria dos pais, cresceram e deixaram você crescer. Saiba que os pássaros aprendem a voar porque suas mães arriscam a joga-los para fora do ninho nas primeiras semanas de vida.

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 "Sobre o amor"

Em seu livro, Fracassou o casamento por amor?, Pascal Bruckner, filósofo e romancista francês, faz uma análise consistente das ilusões românticas na sociedade contemporânea.

Para Bruckner, a idealidade afetiva contemporânea é uma mistura de romantismo agudo e consumismo sexual exacerbado: amamos a ideia do amor acima de tudo. Mergulhados na lógica da intensidade, as exigências sobre o parceiro fogem aos parâmetros do possível. Cobra-se que a mulher seja uma amante ensandecida, e ainda, exemplar mãe de família, profissional bem-sucedida, culta, sadia. O homem deve ser igualmente um virtuoso do sexo, bom no trabalho, pai amoroso, sujeito engraçado. É óbvio que isso conduz a um esgotamento, porque o amor, conclui o filósofo, está submetido ao regime da performance. Ou seja, do alto grau de desempenho dos parceiros.

A sexualidade virou uma espécie de medida da intensidade da relação. Os parceiros se forçam a fazer amor, buscam todas as combinações possíveis para despertar o desejo. Temem a extinção da paixão, da frigidez, de não alcançar a ereção. As revistas femininas a cada semana trazem novas receitas para reacender a libido. Os homens tomam Viagra porque têm medo de não corresponder ao desempenho do super-macho.

Esse amor do amor faz com que se abandonem uns aos outros assim que advém qualquer decepção. Esquecendo-se que amar é aceitar as fraquezas do outro e as suas próprias. Que a construção de um casamento se dá ao longo do tempo, e necessita conviver com as falhas, oscilações, mudanças de intensidade do sentimento. Neste ritmo, mais coerente com a realidade diária, pode-se desejar menos o outro sem querer deixar de ficar junto, porque a ternura leva a melhor sobre a exigência passional.

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O que é a Psicanálise?

Tive um pesadelo esta noite. Acordei angustiado e não consegui mais dormir. Hoje o dia vai ser pesado e sonolento. Provavelmente passarei o dia de mal humor.

Tenho uma entrevista de emprego amanhã. Estou tenso, angustiado, inseguro. Não consigo dormir. Estou comendo demais. Apareceu uma espinha no meio da testa. Por que isso acontece comigo?

Vou apresentar um trabalho na escola na semana que vem. Estou com dor no estomago. Minhas mãos estão úmidas. Minha cabeça parece que vai explodir. Acho que vou vomitar.

Ainda não encontrei o amor da minha vida. Gostaria tanto de ter alguém para amar. A solidão me incomoda. Não sou uma pessoa acomodada, nem feia, nem ignorante. Tenho amigos, trabalho e projetos de vida. Consegui conquistar tantas coisas na vida, mas não consigo conquistar ninguém.

Por que essa pedra no meio do meu caminho? Essa sensação de que há alguma coisa em mim que eu não controlo, não entendo, não sei o que é; mas sinto profundamente os tormentos que isso me causa. A dor que isso me provoca.

Essa dor, essa falta, essa inibição, essa ansiedade são as pedras no meio do caminho. Cada um conhece muito bem o formato, o tamanho e o peso da sua. O poeta escreve versos sobre ela. O analista vai propor encontrar, através do processo de análise, a sua formação inconsciente.

Porque a psicanálise é “isso”: o inconsciente. Um saber que opera em nós e sobre o qual nada sabemos. O inconsciente não é uma caixa preta cheia de mistérios. O inconsciente é a palavra que escapa da lógica do dizer. Às vezes, uma palavra a mais. Outras vezes, a palavra que falta. 

Sobre a singularidade dessas palavras se faz uma análise. Escutando-as podemos criar outro modo de vida, outra forma de olhar para as coisas. Essa foi a grande descoberta da psicanálise: quando falamos dizemos algo que não escutamos.  O analista é aquele que escuta.